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Cristianismo puro e simples

  • Foto do escritor: Nicolle Kate
    Nicolle Kate
  • 13 de fev. de 2024
  • 11 min de leitura

Começando a trilogia de Lewis com esse livro encantador que, baseado em seu contexto histórico, tem a função de simplificar e revisar o básico da moralidade cristã, pontuando algumas verdades e teorias teológicas sem aprofundar muito em detalhes, mas sempre gerando em nós muitos questionamentos internos e proporcionando uma clareza sobre o que é o cristianismo; tanto para os cristãos, que ainda não encontravam resposta para tal questão, quanto para os não-cristãos que não entendiam seu conceito. O livro I divide seus primeiros capítulos e trata sobre a pauta “certo e errado” como forma de tentar esclarecer o que é, numa opinião universal, aquilo que consideramos verdade/certo e aquilo que consideramos falso/errado. Inicialmente, Lewis designou a base de todo o pensamento sobre nós como: 1º. O dever de agir de um jeito (bom e mau — segundo a moralidade comum e instintiva sobre o que eles representam na sociedade). 2º. Transgressão da Lei Moral apesar da humanidade conhecê-la.

Ainda no livro I, Lewis afirma que não existe impulsos bons e maus. Ele usa a analogia do piano; o piano não possui dois tipos de tecla, as “certas” e as “erradas”, ou seja, toda tecla é correta em determinado momento, e errada em outro. E o autor finaliza essa linha de raciocínio afirmando que a Lei Moral não é um único instinto ou conjunto de instintos, mas algo que produz um tipo de tom/harmonia, o que denominamos conduta correta e que aí sim, direciona os instintos. Então a Lei Moral é como uma sequencia de ações que harmonizam umas com as outras, podendo uma atitude ser “boa” num momento e “ruim” noutro, e não simplesmente um conjunto de ações que dizemos que sabemos instintivamente que são boas ou más. O autor também nos direciona à reflexão da Lei da Natureza Humana ou Lei do Comportamento Digno. Ele nos cita algumas outras leis que envolvem o universo, por exemplo, a lei da gravidade que diz quando ou não as pedras devem cair, ou a própria Lei da Natureza (sem ser a Humana) que rege todo o envolvimento das árvores e que as fazem obedecer todos os seus regimentos naturais e biológicos; já a Lei do Comportamento Digno diz o que os seres humanos devem fazer, porém não fazem. Ele faz um paralelo com o questionamento dos seres humanos sobre o porquê de serem bons, altruístas, etc., e permanece em sua linha de raciocínio dizendo que as pessoas devem ser altruístas, devem jogar limpo, não por serem realmente altruístas ou por gostarem de ser como tal, mas é o que elas deveriam ser segundo a Lei Moral. Conclui-se ao final do capítulo que na verdade, seguindo a lógica dos acontecimentos citados anteriormente, existe algo muito além dos fatos comuns do comportamento humano, mas ainda sim muito real; uma lei que não foi criada nem construída por nós nem no mais profundo lugar de nossas mentes, mas que exerce uma pressão sobre nós. Seguindo essa análise moral, são expostas a nós, leitores, a reflexão científica. Desde que as pessoas começaram a desenvolver a habilidade do pensar, elas questionam o que é esse universo e qual o motivo de sua existência e, logo após, o livro nos apresenta as duas vertentes que sustentam e arriscam responder essas dúvidas. A primeira é a visão materialista; nessa visão a matéria e o espaço simplesmente existem e sempre existiram, sendo essa visão incapaz de explicar o porquê; e a matéria, numa espécie de “rotina” ou maneira fixa, passou a produzir seres como nós, condensados em seus átomos e que com “muita sorte” — palavras do autor — foram capazes de pensar. Por obra do destino, uma brecha em milhares se abriu em nosso meio e fez com que algo colidisse com o nosso sol e começou a produzir a partir daí os planetas; e por mais uma brecha aberta em milhares de outras possibilidades, todos os elementos químicos que favorecem o surgimento da vida, juntamente com a temperatura correta, surgiram em um desses planetas — o planeta Terra. Logo as porções de matéria e, posteriormente criaturas vivas, se desenvolveram até se transformarem em nós, os seres humanos. A segunda visão é a religiosa; de acordo com ela, o que está por trás do universo se assemelha a uma mente, ou seja, é algo consciente que possui propósitos e preferências. Como nós cristãos aprendemos, essa visão baseia-se na ideia de que esse ser criou o universo e em parte, o fez com o propósito de criar criaturas semelhantes a ele, no sentido de possuir mentes. Como sabemos, a ciência funciona a partir dos experimentos e observa todas as reações das coisas e seus elementos compostos, porém a razão pela qual as coisas acontecem, ou se existe algo de natureza diferente — um poder supremo — isso já não seria uma questão científica. Esse “algo por trás” teria, portanto, que permanecer desconhecido ao ser humano ou teria que ser conhecido de outra maneira. No fim essa longa narrativa só nos leva ao ponto: ansiamos saber se o universo é simplesmente o que é, ou se há algum poder por trás dele, uma vez que esse poder não seria um fato observado, mas uma realidade que o obriga a ser criado. Afinal, como o próprio autor disse “Se houvesse um poder controlador fora do universo, ele não poderia se mostrar para nós como um dos fatos que se dão do lado de dentro do universo — não mais do que um arquiteto de uma casa poderia ser realmente uma de suas paredes, uma escada ou uma lareira dentro da casa.” E a nossa única resposta se daria pela revelação desse ser por meio de uma influência ou de um mandamento que nos induzisse a agirmos de determinada forma. Portanto, assim como as pedras ou as árvores recebem um regimento e um direcionamento de sua Lei Natural, nós somos regidos por um poder, um Guia. Essa conclusão se baseia na ideia de que realmente existe Algo por trás do universo dirigido-o; e esse Algo se assemelha a uma mente, é dito isso pois não temos descrição de algo mais parecido com esse Poder do que a mente. Chegamos ao ponto que entendemos que - independente do Deus de qualquer religião, (inclusive do cristianismo) encontramos um Algo ou Alguém que está por trás da Lei Moral — esse Algo nos deixa duas evidências, a primeira delas é o universo criado e a segunda, a própria Lei Moral, a partir dela podemos descobrir até mais de Deus do que através da sua criação espacial. Nesse sentido, pode-se dizer que o Ser por trás desse vasto mundo está interessado na boa conduta e por isso temos a tendência e o costume de dizermos a afirmação: Deus é “bom”. Se Deus for como a Lei Moral ou instituí-la como uma conduta-base então ele não é bom como pensamos, pois a Lei Moral nos diz o que deve ser feito, sem se importar se isso seja doloroso, difícil de ser executado ou até mesmo perigoso. Ao final do primeiro livro ainda não chegamos ao que o autor destaca como “Deus pessoal”, apenas um poder por trás da Lei Moral, que se assemelha a uma mente, mas que pode ser muito diferente. Lewis afirma que se for uma mente puramente impessoal, não existe sentido em pedir que lhe faça vista-grossa quando você errar. Você poderia até não gostar dessa bondade impessoal e absoluta, mas uma parte sempre estará do lado dele concordando com sua desaprovação em relação aos males humanos; e você até poderia querer que ele abra uma exceção para você, mas no fundo saberia que esse poder teria que detestar esses comportamentos, caso contrário não poderia ser bom ou uma bondade impessoal e absoluta. Se o universo em que vivemos não for governado por uma espécie de bondade, então todos os nossos meros esforços ou tentativas de acerto são em vão; porém, se for governado, estamos opostos a essa bondade todos os dias - estamos derrotados com ou sem esse Poder. “Deus é o nosso único alento, mas é também o terror supremo: a coisa de que mais necessitamos e aquela da qual mais desejamos fugir. Ele é o nosso único aliado e nos tornamos seus inimigos.” Chegamos ao ponto em que o autor começa a introduzir algumas concepções do que realmente significa o cristianismo pautado pelo arrependimento. Ele nos diz que quando percebemos que a Lei Moral existe e que há um poder por trás dela e nos damos conta de que violamos uma norma dessa lei e que cometemos alguns erros contra esse Poder, aí sim, o cristianismo entra em ação com o arrependimento — até porque o cristianismo prega o arrependimento e promete perdão, não dizendo nada e nem se correlacionando com pessoas que acham que não têm do que se arrepender, muito menos sentem que precisam receber perdão. E para concluir esse primeiro livro, Lewis finaliza com chave de ouro dizendo: É claro que concordo que a visão cristã é, no longo prazo, algo que confere um consolo inexprimível. Mas ela não começa pelo consolo, e sim com a consternação que tenho descrito, e não adianta nada tentar obter esse consolo sem antes passar por tal desalento e consternação. E nos oferece a seguinte reflexão:

“O consolo é algo que você não consegue alcançar quando está buscando-o diretamente. Se você sair em busca da verdade, poderá encontrar consolo no final: se sair em busca de consolo, não alcançará nem o consolo nem a verdade — apenas conversa mole e ilusões, para começo de conversa, as quais acabarão em desespero.”

Entramos agora no livro II: “No que acreditam os cristãos?” — a partir desse livro até o livro V, em todos os capítulos, vamos emergir num conhecimento mais direto sobre do que se trata o puro e simples 'Cristianismo'. Em geral, o livro responde as principais dúvidas que permeiam a toda a humanidade quando se trata da religião cristã; tais dúvidas são sobre oque/quem Deus é, o porquê de existirmos, o que é o cristianismo, qual nosso propósito nessa vida, etc. Isso nos leva à primeira questão que Lewis levantou para ser respondida : Deus realmente existe? E outra, se esse Deus que fez o mundo é bom, por que esse mundo desandou? — Dizemos que o universo é mau, injusto e cruel, mas qual é a nossa ideia sobre bom e mau ou de justo e injusto? Basicamente, o que o autor quis transmitir é que a ideia do ateísmo de que o mundo não tem sentido — considerando que essa visão não encontrou propósitos sólidos na existência humana — se mostra simplista, pois se o universo não possui sentido, não teríamos como descobrir que ele não tem sentido. Seguindo essa pauta sobre quem Deus é, entramos em uma outra visão simplista: a visão do Deus bom lá no Céu e tudo certo no mais. As pessoas esperam que a doutrina cristã seja algo simples de ser explicado e certamente já viram aqueles grupos de pessoas que afirmam que se realmente existe um Deus por aí, Ele trataria de simplificar as coisas e tornar a rota o mais linear possível. Mas a verdade, diferente do que essas pessoas acreditam sobre Deus fazer a religião ficar simples — e Deus nem inventou a religião — é que a realidade não é fácil nem óbvia como nossa linha de pensamento em nossas mentes sugere ser; é justamente o contrário, e assim como a realidade é algo que nunca teríamos imaginado, o cristianismo também é. A religião perfeita — na qual é oferecido a nós um universo que sempre esperamos, ou a religiao na qual nossos desejos fossem realizados e nossa vontade primitiva fosse satisfeita — parece ser simples de mais e fazer parte de uma de nossas invenções, mas o cristianismo apresenta com precisão as mudanças e renúncias necessárias para determinadas coisas reais; então, todas aquelas ideologias infantis que temos na humanidade a cerca da religião cristã terão que ser anuladas, porque se há um problema que não é simples, a resposta também não o será. E agora vamos focar em uma das perguntas mais feita pelos leigos em relação à fé cristã e Lewis a propôs da seguinte maneira: “ Esse estado das coisas está ou não de acordo com a vontade de Deus? Se estiver, você dirá que ele é um Deus estranho; e, se não estiver, como é que alguma coisa pode acontecer contrária à vontade de um ser dotado de poder absoluto?” A resposta poderia ser totalmente elaborada e preenchida com as mais diversas teorias, mas a simples verdade é que o Senhor quer um relacionamento conosco pautado no livre-arbítrio e não um serviço de robôs. Deus nos criou e nos capacitou ao livre-arbítrio, tendo em mãos a opção de fazer o bem ou o mal. Porém, derivada dessa primeira pergunta a segunda pergunta é: “Por que, então, Deus permite o livre-arbítrio?”, e a resposta é simples: embora o mal seja uma das consequências do livre-arbítrio, essa liberdade é a única coisa que torna possível todo o verdadeiro e espontâneo amor, toda a bondade, busca, entrega e alegria. “Quanto melhor for a matéria de que uma criatura tenha sido feita — quanto mais inteligente, forte e livre ela for —, melhor ela se tornará se seguir o caminha certo, mas, também, pior se tornará quando seguir o caminho errado.” O livro em geral traz uma retrospectiva geral do cristianismo, abordando suas questões morais, virtudes cardeais (Prudência, Temperança, Justiça e Fortaleza) e teologais (Fé, Esperança e Caridade); além de envolver questões da moralidade e psicanálise, impulsos carnais, casamento cristão, perdão e o grande pecado que corrompe as virtudes em nosso ser (trata-se do estado da mente que é completamente contrário a Deus). E mais uma de suas subdivisões é sobre o conceito de gerar e criar, o bom contágio que devemos ter em Cristo, a Trindade (como forma de relação entre a geração do Filho e o seu relacionamento com o Pai; o que no geral, emana de uma vida comunitária entre os dois, é uma Pessoa real, que seria a terceira das três Pessoas que são Deus), a relação de Deus com o Tempo, a possibilidade de começarmos fingindo nossa transformação, a ideia cômica sobre acharmos que temos o poder para controlar ou manifestar algo, entre outras divisões. Nos últimos capítulos, podemos retornar ao princípio das coisas e se torna nítido o quão somos vazios de nós mesmos quando estamos longe dEle, nos moldando a partir dos ideais que a humanidade dissipa e quando percebemos que somos “nós mesmos” quando partilhamos da mesma vida espiritual que Jesus nos ofereceu na crucificação, tudo fica mais fácil; e é através dessa vida espiritual que é possível a transição da criação carnal para a geração espiritual e divina — visto que, como o livro nos ensinou, gerar é se tornar pai ou mãe, criar é fazer; logo, o que Deus gera é Deus, e o que Ele cria, não é. E, como Lewis se encarregou de complementar: é disso que o cristianismo se ocupa; este mundo poderia ser representado como uma loja de esculturas (criações) e nós somos as estátuas e alguns de nós despertaremos para a vida por intermédio de algo além da vida (no caso, a vida espiritual de Cristo). Percebemos o quão estamos cheios de “nós” quando tiramos alguma satisfação e contentamento em nossas almas ao vermos como estamos, mas quando reconhecemos a grandeza de Deus, nos quebrantamos e logo se torna impossivel essa satisfação vir à tona e nos contentarmos em permanecermos como estamos. Servimos a Ele não porque somos bons, até porque o atributo da bondade foi liberado a nós por Ele próprio; servimos a Ele não porque temos dom ou coisas do tipo, até porque tudo de bom que temos e somos, nos foi entregue por meio dEle. Na condição em que estamos, devemos apenas louvá-lo por ao menos nos permitir participar de todo o Seu plano e de podermos contemplar a Sua glória e nos constrangermos diante dela. Devemos agradecer ao Senhor por Ele ter partilhado conosco, meras criações a Sua vida espiritual (Zoe), a ponto de permitir a transformação do corpo criado ao corpo gerado, que compartilha da vida em Cristo e se veste dEle continuamente durante toda a eternidade.

A verdade é que o Cristianismo em si se baseia em um relacionamento entre o homem e Deus, é sobre revestir-se de Cristo e também vestindo-se de filho de Deus até realmente se tornar um. Mas esse relacionamento possui uma entrega, Cristo nos diz: "Dá-me tudo. Não quero uma parcela do seu tempo, uma parcela do seu dinheiro, ou do seu trabalho, eu quero você. Não vim para atormentar seu ego natural, vim para matá-lo." O cristianismo é simples, mas exige um custo muito alto de entrega e rendição ao Senhor, e apenas você pode permitir que Ele te transforme à medida que você renuncia tudo a Deus, para que no fim nos tornemos novas criaturas nEle e para Ele — Porque tudo, afinal, é para Ele e por meio dEle; toda glória e toda honra seja dada ao Único que é digno de receber e todo o louvor seja dado ao Teu santo nome.

 
 
 

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